Artigos › 07/12/2016

Uma análise sobre o pré-conceito e o conceito a partir de São Francisco de Assis

 por João Manoel Zechinatto

                        11Formar-se como pessoa fundamentada no carisma franciscano não é simples façanha, torna-se um construir que requer empenho constante e rigoroso moldar-se. O objetivo desse texto é apontar não os conceitos fundamentais que nortearam a vida de S. Francisco, mas apontar o salto dado entre pré-conceito e conceito a partir de uma passagem da vida do santo, a saber: o encontro com o leproso. A partir desta passagem tentaremos fazer uma análise fenomenológica de como a questão conceito não é um dado acabado ou pronto, e sim, um contínuo fazer-se. Nossa tentativa é mostrar a partir dessa análise o sentido que a virada do “pré” para o “conceito” acarreta na vida de S. Francisco e, consequentemente, para o carisma franciscano, do qual somos pretensos herdeiros. Compreender a maneira como essa conceituação toma forma no evento do encontro com o leproso é adquirir sabedoria prática, para assim como S. Francisco sairmos do pré-conceito rumo a um conceito devidamente formado.

                        Trataremos por primeiro da diferença semântica entre pré-conceito e conceito. De antemão devemos dizer que preconceito diferencia-se de pré-conceito. Enquanto que o primeiro trata-se de uma opinião que impede uma confrontação relacional com uma série de situações, coisas ou pessoas; o segundo trata-se do requisito natural e básico da formação dos conceitos e não necessariamente é sempre negativo. O preconceito fecha o sujeito à formação do conceito e se situa geralmente no plano da ignorância, pois nele não existe possibilidade de reflexão e relação, seja com um saber, um objeto, ou até mesmo, uma pessoa. O pré-conceito, por outro lado, é a base de quem na vivência experiencial se abre humildemente na construção dos conceitos. Não se trata de trilharmos uma linha empirista no sentido restrito do termo, e nem uma linha racionalista, mas sim, sob um viés fenomenológico compreender o todo do evento da vida como um construir-se. O conceito como formulação oriunda da análise mental feita com rigor de observação e premissas logicamente válidas só pode ser adotado como experiência histórica se adquire sentido refletido e analisado. Engana-se quem supõe que a apropriação do conceito é feita objetivamente. A realidade objetiva é apercebida subjetivamente ao sujeito e intersubjetivamente com o todo das relações extemporâneas.  O caráter simbólico, inerente a capacidade humana de relacionar-se, é o que dá grau de sentido ao conceito na vida de quem se apropria do experenciado como sabedoria prática. O pré-conceito, com valor positivo, pode muito bem ser sintetizado na máxima socrática: “só sei que nada sei”. O reconhecimento subjetivo de ser ignorante fornece o habitat para que se possa desenvolver uma noção intelectualmente elaborada. O preconceito motivado pelo medo tem como fruto não apenas a mediocridade ou ignorância, mas ódio, carregado de violência externada de múltiplas maneiras, aqui reside seu maior perigo. Por isso, falamos do conceito como grau de sentido afirmativo e seguro de saber ou conhecimento. Mesmo assim, é preciso reconhecer que o sujeito nunca chega firmemente a uma noção final, o conceito pode ainda estar em aberto, algo pode vir a complementá-lo ou modificá-lo, mas o medo e a violência já se encontram superados.

                        Depois de formularmos as linhas básicas de pré-conceito e conceito devemos agora partir para S. Francisco propriamente. Transcrevemos o texto de Tomás de Celano que fala do encontro com o leproso:

Por que, como eu estivesse em pecados, parecia-me sobremaneira amargo ver leprosos e o Senhor conduziu-me entre eles, e fiz misericórdia com eles. Pois, como ele dizia, antigamente era-lhe tão amargo ver leprosos que, quando no tempo de sua vaidade via as casas deles a uma distância de quase duas milhas, tapava o nariz com suas próprias mãos. Mas, como pela graça e virtude do Altíssimo começasse a pensar coisas santas e úteis, vivendo ainda no hábito secular, num certo dia encontrou um leproso e, superando-se a si mesmo, aproximou-se e beijou-o. E, a partir de então, começou a desprezar-se mais e mais até chegar, pela misericórdia do Redentor, à perfeita vitória sobre si mesmo. (1Cel 17, 2-5).

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Quando olhamos para S. Francisco nesse excerto temos um antes, um durante e um depois. Primeiro, um jovem Francisco cheio de preconceitos com os leprosos. Nem perto chegava deles de tão horrendos que lhe pareciam.  No período que chamamos de conversão, que ocorre depois de ter sido liberto de Perúgia, advém um intenso momento de questionamento sobre si mesmo, não qualquer questionar-se, mas um verdadeiro processo de descoberta dos rumos e dos valores que norteariam seu eu. É desse período de questionamento que o encontro do leproso se situa. Imbuir-se desse espírito até então novo para ele o faz abrir-se àquilo que antes lhe era amargo. Eis o significado do encontro do leproso diante dessa ótica: defrontar-se com o novo e com ele transformar-se. O preconceito dá lugar ao pré-conceito e consequentemente a experiência do encontro erige a possibilidade de um conceito mais claro e palatável. O antes é fantasia e imaginação, preconceito como já designamos; o encontro é a realidade histórica dotada de simbologia e sentido.

                        É próprio do pré-conceito uma ideia mental pouco refletida e muitas vezes superficial e limitada. O encontro face a face é o ponto neural em que a teoria frágil do “penso assim” cai diante da possibilidade vivencial do novo, não apenas como experiência em si, mas experiência reflexiva. S. Francisco acolhe o trágico e compreende que é através da tragicidade do encontro com o diferente que ocorre a transformação necessária para sair do obscurantista pré-conceito rumo às luzes do conceito. O encontro não acaba em si, do mesmo modo que o conceito não está formado, é apenas um “start”. S. Francisco não está pronto, o beijo apenas abriu-lhe uma nova porta e um novo caminho. Há ainda uma longa e árdua estrada para percorrer nesse formar-se como pessoa esclarecida. Usando uma concepção dos nossos tempos: para ser homem pleno é preciso ser global. A restrição dos conceitos é intrínseca aos pequenos e aos limitados, a largueza de mundo é inerente àqueles que se imbuem da grandeza que sobrepuja o mundo. Abrir horizontes é a força capaz de transformar o mundo que vivemos. Ser visionário é abrir-se e confrontar-se com o novo. S. Francisco confronta o seu eu quando põe em suspenso a ideia preconceituosa que tinha do leproso e parte na superação de si mesmo.

                        sfaTomás de Celano aponta que S. Francisco despreza-se mais e mais até alcançar a vitória sobre si mesmo. Podemos então falar de um novo homem? O que era amargo tornou-se doce, isso é um fato. O mergulhar-se frontalmente faz desse jovem alguém provado e experimentado na vida. O desprezo que faz de si não se trata da totalidade do seu eu, o desprezo refere-se antes ao seu modo de ser passado. Toda a sua historicidade passada conta muito para quem ele quer e virá a ser. Nunca deixamos de ser quem éramos, mas tornamo-nos um novo ser a partir do que éramos. A irrupção do novo eu forjado na experiencialidade é sempre histórica. A lembrança do que já fomos permanece na memória, mas a força da verdade real transformou-nos e já não somos mais os mesmos. Assim como Édipo não é mais o mesmo depois de ser mergulhado na verdade trágica de sua vida, também S. Francisco é um novo homem depois de se defrontar com o amargo, com o seu eu mais humano e, por que não, com o seu pífio pré-conceito.

                        Seguindo uma linha da fenomenologia que rompe com qualquer inatismo ou dual oposição entre mente e realidade sensível deve-se apontar que o próprio do construir conceito é jamais tomar uma verdade absoluta sem antes verificá-la ou experenciá-la. Embora pareçamos presos a uma epistemologia ultrapassada, é a fenomenologia de uma existência percepcional e reflexiva que pode explicar com exatidão o sentido que o encontro com o leproso traz à vida de S. Francisco. Não é uma verdade empírica que cai, o leproso continua horrendo e pútrido, mas o medo que paralisa e as teorias racionais que o repelem já não tem mais força. Ele está aberto ao total fenomenal da vida. Ele caminha consciente rumo ao desconhecido porque quer vencer o seu eu pequeno. O tornar-se menor de S. Francisco é o movimento de nivelar-se a altura necessária para que o encontro seja pleno. O preconceito que aprisiona já está vencido para esse homem que se defrontou com o verdadeiro Homem no seu sentido ideal.

             Podemos afirmar que a experiência do leproso feita por S. Francisco não resulta um mero acumular de saber, não tornou-se mais inteligente ou mais douto. O ganho se encontra no mesmo campo, mas diametralmente na outra direção, o campo aqui é o da sabedoria, e esta deve ser tomada no seu sentido mais puro e profundo. Não deixo de observar um paralelo com a virtude da phrónesis aristotélica, pois S. Francisco soma sabedoria prática a partir dessa situação limite, para usar uma linguagem de Karl Jaspers. Os grandes sábios são aqueles que provados no sofrimento e na dor conseguem somar ensinamento prático para si. Atingido pela vida na sua pluralidade e na sua novidade o encontro torna o seu eu emaranhado com o todo outro. O resultado é a construção de um todo seu abrangente e coerente. Já não se pode habitar numa existência limitada e fechada, o caminho que desponta na vida de S. Francisco é aquele que será entoado brilhantemente no Cântico do Irmão Sol. Fazer-se tudo com o todo da criação, eis seu fulcral desejo como resultado de seu novo homem.

São Francisco faz habitar no leproso toda a sua historicidade adquirida e é por essa razão que ele torna-se incomparável. Muitos veem na ascese religiosa um corte absoluto com a vida secular passada e se tomarmos literalmente o texto de Tomás de Celano e outras hagiografias talvez cheguemos a essa mesma conclusão também na vida de S. Francisco. Não nos enganemos, os numerosos textos que hoje dispomos revelam o contrário, a carga histórica de S. Francisco desde sua terna infância moldou quem ele viria a ser como homem e como santo. Se o curso da vida lhe fez novo homem, esse novo homem sempre habitou sobre o mesmo Francisco Bernardone dos tempos passados. Não se pode negar quem somos ou fomos, o trabalho é moldar quem queremos ser. Muito empenho deve ser despendido nessa tarefa e o inacabamento intrínseco e constante no homem é requisito fundamental ao conceituar-se diário e contínuo. O leproso não levou o velho Francisco embora, ele apenas fez desabrochar o novo que estava por vir. Lembremo-nos que não estamos em nenhum ponto de chegada, mas sim, ponto de partida. A sua hercúlea empreitada está apenas por começar.

            45O verdadeiro local do encontro se dá no todo do seu ser: dimensão espiritual e corporal. Os olhos veem a figura horrenda, o nariz pode sentir o cheiro pútrido, os ouvidos podem ouvir o sino que alerta os transeuntes, mas nada o impede. Suas mãos envolvem o corpo desprezível e num ímpeto do tornar-se um, beija-o! Eis o homem! Se a nudez diante da praça de Assis revela o seu despojamento social, o beijo do leproso revela seu despojamento como homem, aqui verdadeiramente o nu luta contra o nu. A maior das batalhas se luta no interior de nós mesmos. O leproso não é apenas uma categoria social marginalizada que S. Francisco encontra, é antes, o espectro do Homem entendido na sua inteireza.

Aqui damos por encerrada a argumentação propriamente pretendida inicialmente, compreender o desabrochar do conceito a partir da experencialidade fenomenal do encontro.

            Embora nossa análise tenha parecido humanista demais em se tratando de um dos maiores santos do catolicismo, devemos ter em mente que o humanismo que S. Francisco concebe é necessariamente fideísta e ligado a uma antropologia teológica. S. Francisco pensa e move-se como homem de fé, para ele não cabe um conceito humanista como o concebemos hoje. O leproso como todo outro que surge diante do homem Francisco é espectro do divino, manifestação de Deus na sua vida. Erroneamente usamos repartições próprias para cada disciplina. Mais uma vez o pré-conceito aparece e revela quantos degraus ainda devemos ascender.

            A inspiração de ser servo e menor apreendida por S. Francisco através do contato com os desvalidos e marginalizados desse mundo denota um caráter inquieto, destemido e original. Vencer a si mesmo e parecer-se cada vez mais com o Cristo pobre nu e crucificado é um conceito que toma forma a partir da transição da amargura para a doçura. A autonomia crescente desse novo modo de caminhar arrebanha uma legião de seguidores, mas isso não o faz Senhor, ele permanece fiel à intuição originária do ser menor. O conceito embora não esteja encerrado ou pronto é dotado de certa forma de solidez, pois há uma fundamental consonância entre teoria e prática na pessoa de S. Francisco. Sua responsabilidade não foi pouca, ambicionar grandes metas não é para todos, há ainda muitos preconceitos e pré-conceitos que nos fecham e nos aprisionam em nossa visão turva e apequenada de mundo. “Francisco mostrou o caminho” intitulou Frei Hugo Baggio em um de seus livros. Esta expressão sintetiza bem em qual dimensão tentou situar-se nossa reflexão.

            Ao longo desse texto procuramos refletir com uma cena da vida de S. Francisco um processo inerente à vida de cada ser humano: apreender conceitos com a vida. Diferenciamos preconceito, pré-conceito e conceito. Defrontamo-nos com o trágico da vida e refletimos os preconceitos que prendem-nos nas fortalezas do eu ensimesmado. Falamos da abertura total do pré-conceito a partir do reconhecimento de si e do outro. E por fim, do sentido transformador da experiência fenomenal e seus desdobramentos. Tornar-se homem de conceitos não é tarefa de um dia, mas trabalho para toda a vida. S. Francisco compreendeu tal necessidade e constantemente deu sinais vitais para superar todos os seus pré-conceitos. Ser instrumento nas mãos de Deus não é ser joguete do destino, é antes, ser consciente de que o meu ser é um ente fundamental no todo da criação. Sigamos seus passos corajosos, imitemos seus feitos admiráveis e superemos todos os nossos preconceitos paralisantes. Jamais esqueçamos quem fomos e somos, pois só assim saberemos o que almejamos ser. Ele mostrou o caminho, resta-nos caminhar!

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