Sem categoria › 09/11/2019

A Sacralidade do Encontro

   “Deus não precisa de batalhas, mas tendas de encontro”

Líderes religiosos de cinco seguimentos distintos foram recebidos, na manhã dessa sexta-feira (08), no seminário franciscano Frei Galvão para uma partilha e para comemorar os 800 anos do encontro entre Francisco de Assis e o Sultão do Egito Al-Malik Al-Kamil.

A mesa foi composta pelos seguintes seguimentos: Roberto do Carmo Rocha, representante da comunidade Hare Krishna; Mãe Renata Gonçalves, sacerdotisa umbandista; Sheikh Rodrigo Jalloul, primeiro sheik islâmico genuinamente brasileiro; Marco Aurélio Alvarenga Monteiro, presidente do conselho deliberativo da entidade espírita Assistência aos necessitados “Diógenes de Medeiros”; e Frei Vitório Mazzuco, religioso na Ordem dos Frades Menores.

Com início às 8h os participantes se reuniram em frente a tenda do encontro, que celebra aquele entre Francisco e o sultão. O eco dele eterniza na história essa cultura de abertura e de diálogo culminando nesse encontro celebrado nessa sexta-feira. Os líderes iniciaram a manhã com orações próprias de seu seguimento religioso.

Após a abertura e recepção dos participantes as atividades começaram no auditório do seminário, cada líder expos dentro da sua religião a resposta para a pergunta: “Como promover a Paz e o Bem na sua prática religiosa?”.

O representante do Hare Krishna, Roberto do Carmo Rocha, conhecido por Hadai Pandita Dasa na comunidade Nova Gokula em Pindamonhangaba, foi quem iniciou o debate e citou quatro pilares para se promover a Paz e o Bem na sua crença, a saber: misericórdia, solidariedade, austeridade e caridade. “Não se pode cair na tentação da sociedade moderna de ficar no materialismo. Desprendendo-se e indo ao encontro do outro se consegue executar os quatro pilares e se aproximar de Deus que é o pai Supremo que quer seus filhos de volta” – e acrescentou – “Deve-se desenvolver bons desejos, executar práticas religiosas para assim seguir bem em seu caminho e assim produz a paz e o bem em sua prática religiosa”.

Em seguida teve a palavra a sacerdotisa umbandista, Mãe Renata Gonçalves, atuante há 20 anos em Pindamonhangaba no Templo Escola Vida e Luz. “Conheci a umbanda pela dor e fiquei pelo amor” conta a líder religiosa que discutiu um pouco o tema do preconceito religioso que ainda hoje é latente. Sua mensagem principal enquanto líder religiosa e de que as pessoas busquem o autoconhecimento e pare de achar que tudo que nos acontece é culpa de situações externas. Para finalizar, ela conta sete princípios para se alcançar uma evolução espiritual: fé, conhecimento, lei, amor, justiça, evolução e geração. “Ser simples também é fundamental nesse processo”.

Após pequeno intervalo, as discussões retornaram com o Sheik Rodrigo Jalloul, que estudou teologia e mística islâmica por 8 anos no Irã, exerce seu ministério no centro islâmico Fátima Zahara no bairro da Penha na cidade de São Paulo. Na sua fala contemplou a pluralidade da Criação: “O alcorão fala que Deus criou a humanidade com vários povos, tribos e línguas, e essa pluralidade deve ser respeitada. A linguagem dos gestos é universal, sem falar o idioma você percebe se está sendo acolhido ou agredido. O ato principal é o respeito, pois sem ele existe a intolerância, preconceito e isso só acontece porque as pessoas não estão cumprindo a mensagem de Deus. Aqueles que se julgam muito religiosos, julgam a religião alheia, atacando-as, não cumprem a vontade de Deus, pois Ele criou povos e tribos diferentes”.

Sua fala ainda contemplou o desejo intrínseco ao ser humano de se eternizar, esse foi o pecado de Adão, querer ser (eterno) como Deus. Nossas atitudes dizem muito de como seremos eternizados, sejam elas boas ou ruins. Podemos ser lembrados como Hitler ou como Francisco de Assis. “O islamismo vê não só as palavras, mas vê as práticas. Falar eu te amo é fácil, mas as atitudes do amor, não.”

Deixou ainda uma reflexão sobre três pontos para alcançarmos a Paz e o Bem na nossa prática religiosa: Respeitar, não julgar e buscar conhecimento. “Se você frequenta uma religião em que o líder religioso julga as demais, não a siga, ou ao menos não siga esse líder religioso, você vai estar apoiando um opressor na Terra […] Deus-Único ensinou, por caminhos diferentes, as mesmas lições e toda religião verdadeira vai te pregar o amor, a fraternidade, a tolerância, não vai te ensinar a julgar, a discriminar”.

Depois, abriu-se a fala de Marco Aurélio Alvarenga Monteiro, espírita, atuante na Assistência aos necessitados “Diógenes de Medeiros” na cidade de Guaratinguetá. Destacou temas necessários aos dias atuais em que o materialismo tomou a vez do espiritual, os pais têm cada vez menos tempo de receber o amor de seus filhos e os filhos de receber a atenção dos pais.

Apontando caminhos práticos para que a Paz e o Bem se concretizem no nosso dia a dia, Marco argumenta: “Ao invés de buscar a Deus, eu busco o próximo, porque se busco Deus sem o próximo não encontro a Deus, e nem a mim, mas se for ao encontro do outro acho os três”. E ainda concluiu o raciocínio: “Fora da caridade não há salvação”.

Encerra sua fala com uma mensagem: “Devemos ter esperança e não esperar, devo ir atrás e não esperar que os outros façam”.

Concluindo a partilha da mesa, Frei Vitório Mazzuco, formado em franciscanismo. Sua fala nos atentou ao perigo de nos fragmentarmos, paz – na sua origem semântica – significa a inteireza do ser, más informações nos fragmentam; fake news, mídia manipuladora, tudo isso contribui para a nossa fragmentação. Sentar e ouvir a verdade realiza a paz.

Francisco torna-se exemplo, é um arquétipo de todo ser humano, “sai do orgulho de si e não tem medo da diferença do outro”. Tem as “mãos vazias de armas, mas braços abertos do desapego, da mensagem de amor e paz. Deus não precisa de batalhas, mas tendas de encontro”.

O encontro encerrou-se com os agradecimentos de Frei João Francisco da Silva, guardião do seminário franciscano Frei Galvão, que recebeu das mãos de nossos irmãos muçulmanos um exemplar do livro sagrado: O Alcorão, um sinal sensível do ressoar do encontro de oito séculos que na manhã dessa sexta-feira se atualizou.

Hare Krishna. Axé. Assalamu alaikum. Paz e Luz. Paz e Bem!

 

Gilberto S. Costa Junior.

Vinícius de O. Betim.

 

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